O método PRISMA é amplamente reconhecido como uma das melhores práticas para conduzir revisões sistemáticas estruturadas e fiáveis em contextos académicos. Ao seguir as suas etapas, é possível documentar todo o processo de pesquisa, seleção e análise de estudos de forma transparente, reduzindo vieses e aumentando a validade metodológica do trabalho — dois fatores decisivos na avaliação de qualquer projeto de investigação a nível universitário.
Neste artigo, explicamos o que é o método PRISMA, como implementá-lo corretamente em cada fase e por que razão é tão importante para a elaboração de uma revisão sistemática bem-sucedida, seja num projeto de mestrado, numa tese de doutoramento ou noutro trabalho académico de nível superior no contexto universitário português.
PRISMA é o acrónimo de Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses — em português, Itens Preferenciais para Relatórios de Revisões Sistemáticas e Meta-Análises. Trata-se de uma diretriz internacional publicada originalmente em 2009 e atualizada em 2020, que orienta a forma como as revisões sistemáticas devem ser planeadas, executadas e descritas, assegurando clareza, transparência e replicabilidade em todo o processo investigativo.
Ao contrário do que por vezes se pensa, o PRISMA não é apenas uma ferramenta de formatação — é um modelo metodológico que estrutura o raciocínio do investigador desde a formulação da pergunta inicial até à síntese final dos resultados.

No contexto académico em Portugal, a adoção do método PRISMA oferece vantagens concretas que se refletem diretamente na qualidade e na avaliação do trabalho:
Aplicar o PRISMA exige o cumprimento de etapas específicas, sequenciais e bem documentadas. Eis como deve ser feito na prática.
O ponto de partida de qualquer revisão sistemática é a definição de uma pergunta de investigação clara, precisa e delimitada, que servirá como fio condutor de todo o processo. Esta pergunta pode ser construída com o auxílio de frameworks metodológicos como o PICO (População, Intervenção, Comparação, Outcome) ou variantes adaptadas a diferentes áreas disciplinares. Uma pergunta bem formulada determina diretamente a relevância dos estudos que serão identificados nas fases seguintes.
Nesta fase, delineia-se um plano de pesquisa bibliográfica sistemática que deve incluir: as bases de dados científicas a consultar — como Scopus, Web of Science, PubMed, ERIC ou Google Scholar, consoante a área temática —; as palavras-chave e descritores selecionados; os operadores booleanos (AND, OR, NOT) utilizados para combinar os termos de pesquisa; e os filtros aplicados por data de publicação, idioma, tipo de estudo e outras variáveis relevantes. Toda a estratégia deve ficar registada com detalhe suficiente para poder ser reproduzida por outro investigador.
Com a estratégia definida, procede-se à pesquisa nas bases de dados selecionadas e compila-se o total de publicações identificadas. Por exemplo: 450 artigos localizados nas bases de dados principais, 30 provenientes de fontes adicionais como referências cruzadas ou repositórios institucionais, totalizando 480 registos antes da remoção de duplicados. Este número inicial deve ser registado com exatidão, pois constitui o ponto de partida do diagrama de fluxo PRISMA.
Utilizando um software de gestão bibliográfica — como o Zotero, o Mendeley ou o EndNote — eliminam-se os estudos repetidos que surgem em mais do que uma base de dados. Esta etapa deve ser documentada no diagrama PRISMA com indicação do número de registos removidos. A remoção de duplicados é essencial para garantir que cada estudo é avaliado uma única vez nas fases seguintes.
Analisa-se o título e o resumo de cada artigo remanescente, aplicando os critérios de inclusão e exclusão previamente definidos — que podem incluir, entre outros, o ano de publicação, a área temática, o tipo de estudo, a população analisada ou a metodologia utilizada. Todos os estudos excluídos nesta fase devem ter o motivo de exclusão registado, para garantir a rastreabilidade do processo.
Os estudos que superaram a triagem inicial são lidos na íntegra para confirmar a sua elegibilidade perante os critérios definidos. Esta leitura aprofundada permite identificar estudos que, apesar de um título ou resumo promissores, não cumprem efetivamente os requisitos metodológicos ou temáticos da revisão sistemática. Os motivos de exclusão nesta fase devem igualmente ser documentados.
Os artigos que cumprem todos os critérios de inclusão após a leitura integral integram a revisão sistemática. O número final de estudos incluídos deve ser claramente fundamentado e coerente com as decisões tomadas nas fases anteriores. Este é o conjunto de evidências sobre o qual assentará toda a análise e síntese do trabalho.
O diagrama de fluxo é um dos elementos mais reconhecíveis da metodologia PRISMA. Trata-se de um esquema visual que resume todo o percurso de seleção dos estudos: quantos foram identificados, quantos removidos por duplicação, quantos excluídos em cada fase de triagem e quantos foram finalmente incluídos. Para além de integrar o trabalho académico, o diagrama deve ser contextualizado e comentado no corpo do texto, nunca apresentado de forma isolada sem interpretação.
Antes de proceder à síntese dos resultados, é necessário avaliar a robustez metodológica de cada estudo incluído, utilizando instrumentos de avaliação validados e adequados ao tipo de investigação em análise — como a escala Newcastle-Ottawa para estudos observacionais, o JBI Critical Appraisal ou a ferramenta Cochrane RoB para ensaios clínicos. Esta avaliação permite identificar limitações e potenciais enviesamentos nos estudos selecionados, reforçando a fundamentação das conclusões da revisão.
Na fase final, reúnem-se e organizam-se os principais achados dos estudos incluídos, de forma lógica, clara e acessível. Dependendo da homogeneidade dos estudos, esta síntese pode assumir a forma de uma meta-análise quantitativa ou de uma síntese narrativa estruturada por temas ou categorias. Em qualquer dos casos, a apresentação deve responder diretamente à pergunta de investigação formulada no início do processo.
Mesmo investigadores experientes podem cometer erros na aplicação do PRISMA que comprometem a qualidade da revisão sistemática. Os mais frequentes são:
Dominar a aplicação do método PRISMA representa uma mais-valia académica significativa para qualquer estudante que desenvolva trabalhos de investigação no ensino superior. A sua adoção garante qualidade, profundidade e rigor científico na revisão sistemática, valorizando o projeto final de curso, a dissertação de mestrado ou a tese de doutoramento perante orientadores, júris e a comunidade académica em geral.
A transparência metodológica que o PRISMA proporciona não é apenas um requisito formal — é uma demonstração concreta de maturidade investigativa e de comprometimento com os padrões da ciência aberta e replicável.
É obrigatório usar o PRISMA? Não é formalmente obrigatório em todos os contextos, mas é altamente recomendado e cada vez mais exigido. Muitas universidades portuguesas, revistas científicas e comités de avaliação valorizam ou requerem explicitamente o uso deste método como garantia de qualidade e transparência na condução de revisões sistemáticas.
Onde devo colocar o diagrama PRISMA no meu projeto? O diagrama é normalmente incluído na secção de metodologia ou apresentado como anexo devidamente referenciado. Em qualquer dos casos, deve sempre ser comentado e contextualizado no corpo do texto — a sua simples inclusão, sem interpretação, não é suficiente para cumprir os requisitos metodológicos da revisão sistemática.
O PRISMA aplica-se apenas a estudos na área da saúde? Não. Embora tenha surgido no contexto das ciências da saúde, o PRISMA é hoje amplamente utilizado em educação, psicologia, ciências sociais, gestão e outras áreas disciplinares que recorrem a revisões sistemáticas como método de investigação.